Em junho de 2026, o Superior Tribunal de Justiça divulgou decisão da Quarta Turma que determinou a cobertura de cirurgia robótica para um paciente com câncer de próstata, embora a técnica não estivesse prevista no Rol da ANS. O julgamento é relevante porque confirma que a ausência na lista não encerra automaticamente a discussão.
O precedente, porém, não transformou toda cirurgia robótica em cobertura obrigatória. A decisão examinou uma prostatovesiculectomia radical laparoscópica assistida por robô, a doença coberta, as vantagens reconhecidas no caso e os critérios legais e técnicos para procedimento fora do Rol.
Para analisar uma negativa, é necessário separar a cobertura da cirurgia principal, a escolha da técnica robótica, os materiais, o hospital e os honorários da equipe.
O que exatamente o STJ decidiu em 2026?
No REsp 2.235.175/RS, a Quarta Turma determinou que a operadora arcasse com os valores gastos em cirurgia robótica indicada para tratamento de câncer de próstata. O tribunal aplicou a taxatividade mitigada do Rol da ANS e mencionou os requisitos técnicos adotados pela Segunda Seção do STJ e pelo Supremo Tribunal Federal na ADI 7.265.
O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul havia reconhecido as particularidades do paciente e os benefícios da técnica, mas afastou a cobertura por falta de previsão contratual ou no Rol. Para o STJ, essa solução divergia da orientação atual das cortes superiores.
A discussão sobre dano moral não foi resolvida automaticamente. O STJ determinou que o tribunal de origem voltasse a examinar os fatos e as provas. Esse ponto reforça que cobertura e indenização são pedidos diferentes.
A decisão vale apenas para câncer de próstata?
O julgamento tratou especificamente de cirurgia robótica para câncer de próstata. Seus fundamentos podem ser considerados em outros tratamentos oncológicos, mas não se aplicam de forma mecânica a qualquer doença ou tecnologia.
Em outro tipo de câncer, será necessário demonstrar que a técnica possui eficácia e segurança, que é adequada ao paciente e que cumpre os requisitos para cobertura fora do Rol. A proteção especial ao tratamento oncológico é relevante, porém não dispensa a prova clínica.
Leia também o panorama sobre tratamento contra o câncer pelo plano de saúde.
Cirurgia coberta e técnica robótica são pedidos diferentes?
Podem ser. Às vezes, a operadora autoriza a cirurgia convencional, mas nega apenas a utilização do robô ou determinados materiais. Em outras situações, a recusa alcança todo o procedimento.
A negativa deve deixar claro:
- qual procedimento foi solicitado;
- qual código ou técnica foi recusado;
- se existe cirurgia alternativa autorizada;
- em qual hospital ela pode ser realizada;
- quais materiais e honorários estão incluídos;
- qual norma ou cláusula fundamenta a recusa.
Essa separação orienta o relatório médico. Se o plano aceita a cirurgia aberta ou laparoscópica convencional, o profissional precisa explicar por que essas opções não possuem equivalência adequada para aquele paciente.
Estar fora do Rol significa que o plano pode negar?
Não de forma automática. A Lei 9.656/1998 passou a prever hipóteses de cobertura de tratamento ou procedimento não incluído no Rol, e o STF, ao julgar a ADI 7.265, estabeleceu critérios cumulativos para a análise.
De maneira geral, são relevantes a prescrição por profissional habilitado, a inexistência de vedação expressa ou pendência de avaliação regulatória incompatível com o pedido, a falta de substituto terapêutico adequado no Rol, a evidência científica de eficácia e segurança e o registro sanitário pertinente, conforme o tipo de tecnologia.
A aplicação desses requisitos exige documentação, e não apenas a afirmação de que a técnica é “mais moderna”. Entenda a estrutura em tratamento fora do Rol da ANS.
O médico pode escolher livremente qualquer tecnologia?
A autonomia do profissional assistente possui peso, mas não cria cobertura ilimitada. A indicação deve estar relacionada ao quadro do paciente, às alternativas existentes e às evidências disponíveis.
Um relatório convincente evita promessas absolutas e esclarece:
- diagnóstico, localização e estágio da doença;
- cirurgia proposta e objetivo oncológico;
- condições clínicas que influenciam a escolha;
- riscos específicos das alternativas;
- benefícios concretos esperados com a técnica robótica;
- evidências aplicáveis àquele cenário;
- experiência e estrutura necessárias;
- prazo clinicamente aceitável para realização.
Se a justificativa se limita a conforto, preferência ou menor tempo de internação sem relação com o caso, a discussão pode ficar mais frágil. O documento deve explicar por que a técnica é necessária ou substancialmente mais adequada, e não apenas desejável.
A operadora pode oferecer cirurgia convencional?
Pode apresentar alternativa e submetê-la à avaliação técnica. O ponto central é saber se ela é efetivamente equivalente para o paciente. A existência abstrata de uma cirurgia convencional não basta quando o relatório demonstra contraindicação, maior risco específico ou perda clínica relevante.
Também não se deve presumir que a robótica é sempre superior. Os resultados dependem do tipo de procedimento, da experiência da equipe e das características do paciente. A comparação precisa ser científica e individualizada.
Se houver divergência, peça que a operadora identifique a alternativa e a justificativa do profissional auditor. Dependendo do contrato e do procedimento, podem existir regras de junta médica. Veja como funciona a junta médica do plano de saúde.
Hospital e equipe fora da rede também serão cobertos?
A decisão sobre a técnica não garante automaticamente livre escolha de hospital ou equipe. Se a operadora possui estabelecimento e profissionais credenciados capazes de realizar a cirurgia autorizada, a utilização da rede costuma ser a regra.
Quando não há estrutura robótica disponível, equipe habilitada ou vaga em prazo compatível, documente a insuficiência. Solicite formalmente indicação de prestador e guarde as respostas. Só depois avalie atendimento fora da rede e extensão do reembolso.
O reembolso pode mudar conforme o paciente escolheu livremente um prestador particular ou foi obrigado a sair da rede por falha da operadora. Leia reembolso fora da rede credenciada.
Quais documentos reunir?
- prescrição e relatório médico detalhado;
- exames de imagem, biópsia e estadiamento, quando aplicáveis;
- descrição completa da cirurgia e da técnica robótica;
- comparação com as alternativas oferecidas;
- referências científicas pertinentes;
- identificação de hospital, equipe e equipamento;
- pedido de autorização;
- negativa integral e fundamento escrito;
- lista de prestadores indicados pelo plano;
- orçamento discriminado;
- contrato, carteirinha e comprovantes de pagamento.
Se houver urgência, o relatório deve indicar o risco da demora e o prazo clinicamente aceitável. A palavra “urgente” isolada é menos útil do que explicar progressão, janela terapêutica e consequências de adiar o procedimento.
Cirurgia já paga: o reembolso é automático?
Não. O precedente de 2026 determinou o ressarcimento porque reconheceu o dever de cobertura no caso concreto. Em outra situação, serão avaliados pedido prévio, negativa, urgência, falha da rede, valores e documentos.
Antes de assumir despesa elevada, solicite orçamento discriminado e esclareça o que pertence ao hospital, à equipe, ao uso do robô e aos materiais. Notas fiscais genéricas dificultam demonstrar a extensão do gasto.
Se a cirurgia já ocorreu, preserve a negativa anterior, o comprovante de pagamento e o prontuário. O resultado positivo do procedimento não prova sozinho que a recusa original era indevida, mas os documentos permitem analisar o dever contratual existente na época.
Negativa de cirurgia robótica gera dano moral?
Não automaticamente. No próprio REsp 2.235.175/RS, o STJ encaminhou a questão de volta ao tribunal de origem porque a análise dependia dos fatos e das provas.
São relevantes, entre outros elementos, a justificativa da operadora, a urgência, a duração do impasse, o risco clínico e o impacto concreto. Reconhecer a cobertura não significa necessariamente reconhecer indenização. Veja quando uma negativa do plano pode gerar dano moral.
Roteiro após a recusa
- Peça a negativa por escrito.
- Confirme se foi negada a cirurgia, a técnica, o hospital ou algum material.
- Solicite relatório comparando a robótica com as alternativas do Rol.
- Verifique a existência de equipe e estrutura na rede.
- Organize evidências científicas e documentos do diagnóstico.
- Peça reanálise e registre protocolo.
- Considere reclamação à ANS e orientação individual conforme a urgência.
Para os primeiros passos, use o roteiro plano de saúde negou cirurgia, exame ou procedimento.
Conclusão
O STJ reconheceu em 2026 a cobertura de cirurgia robótica para câncer de próstata em um caso que preenchia critérios técnicos para procedimento fora do Rol. A decisão impede que a operadora encerre a análise com a frase “não consta da ANS”, mas não cria autorização geral para toda cirurgia robótica.
O ponto decisivo é a prova de que a técnica é adequada ao quadro, possui respaldo científico e não pode ser substituída satisfatoriamente por alternativa coberta. Rede, hospital, materiais, reembolso e dano moral continuam exigindo análise própria.
Fontes oficiais
- STJ — cirurgia robótica para câncer de próstata, REsp 2.235.175/RS
- Lei 9.656/1998 — texto compilado
- ANS — Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde
Conteúdo informativo e sem promessa de resultado. A cobertura depende do diagnóstico, da técnica, das alternativas e das provas do caso.


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