O prontuário reúne informações essenciais sobre consultas, exames, diagnósticos, prescrições, procedimentos e evolução clínica. O direito à cópia do prontuário médico permite ao paciente dar continuidade ao tratamento e também pode esclarecer o que aconteceu durante um atendimento.

Embora o documento fique sob a guarda do médico, hospital ou clínica, as informações dizem respeito ao paciente. O Código de Ética Médica veda negar acesso ou deixar de fornecer cópia quando solicitada, ressalvadas situações excepcionais de risco ao próprio paciente ou a terceiros.

Apesar disso, na prática ainda surgem exigências excessivas, demora e entrega incompleta. Um pedido bem formulado deve identificar o prontuário solicitado, quem tem legitimidade para recebê-lo e a recusa apresentada pelo serviço de saúde.

O prontuário pertence ao paciente ou ao hospital?

É importante separar o documento original das informações nele registradas.

O prontuário original fica sob a guarda do médico ou da instituição responsável pelo atendimento. Essa guarda existe porque o documento precisa ser preservado, protegido contra alterações e mantido disponível conforme as normas profissionais e legais.

O paciente, por sua vez, é titular das informações pessoais e de saúde. Por isso, pode acessar o conteúdo, obter cópia e receber explicações necessárias à compreensão.

Em regra, o hospital não entrega o prontuário físico original. Ele fornece cópia impressa ou eletrônica.

Quem tem direito à cópia do prontuário médico?

Sim. O artigo 88 do Código de Ética Médica proíbe o médico de negar acesso ao prontuário ou deixar de fornecer cópia quando solicitada.

A Lei Geral de Proteção de Dados também assegura ao titular acesso aos dados pessoais tratados por instituições públicas e privadas. Dados sobre saúde são classificados como sensíveis e recebem proteção reforçada.

O acesso não deve ficar limitado a um resumo escolhido unilateralmente pela instituição quando o paciente pediu o conjunto completo de registros que lhe dizem respeito.

O que deve constar no prontuário?

O conteúdo depende do atendimento, mas pode incluir:

  • ficha de admissão;
  • anamnese e histórico clínico;
  • evolução de médicos e outros profissionais;
  • prescrições;
  • pedidos e resultados de exames;
  • relatórios de enfermagem;
  • registros de sinais e cuidados;
  • termos de consentimento;
  • descrição cirúrgica;
  • ficha anestésica;
  • materiais e medicamentos utilizados;
  • registros de intercorrências;
  • alta hospitalar;
  • encaminhamentos;
  • imagens e laudos disponíveis.

Nem todo item estará no mesmo sistema. Exames de laboratórios terceirizados e imagens podem ser armazenados em plataformas distintas. O pedido deve especificar o que se pretende receber.

Como solicitar a cópia?

Faça o pedido por um canal que gere prova. Pode ser protocolo presencial, formulário, e-mail institucional ou portal do paciente.

Informe:

  • nome completo;
  • CPF e documento de identificação;
  • data de nascimento;
  • período do atendimento;
  • unidade, setor ou profissional;
  • tipo de documento solicitado;
  • formato desejado, se houver opção;
  • telefone e e-mail para contato.

Use uma descrição objetiva, como “cópia integral do prontuário referente à internação de determinada data, incluindo evoluções, prescrições, exames, ficha anestésica, descrição cirúrgica e termos assinados”.

Guarde o número do protocolo e uma cópia do requerimento.

O hospital pode exigir documento de identificação?

Sim. O prontuário contém dados sensíveis e sigilosos. Confirmar a identidade protege o próprio paciente contra acesso indevido.

A instituição pode exigir documento oficial, CPF e assinatura compatível. Em ambiente digital, pode utilizar autenticação segura.

A exigência deve ser proporcional. Pedir documentos sem relação com a identificação ou criar etapas desnecessárias pode se transformar em obstáculo indevido.

Outra pessoa pode retirar o prontuário?

Pode, se estiver devidamente autorizada ou atuar como representante legal.

Normalmente serão necessários:

  • documento do paciente;
  • documento do representante;
  • autorização ou procuração com poderes específicos;
  • documento de tutela, curatela ou representação legal, quando aplicável.

O hospital deve preservar o sigilo. Ser parente, por si só, não garante acesso irrestrito às informações de um paciente capaz.

Evite procurações excessivamente amplas. O documento pode autorizar apenas solicitar e receber a cópia do prontuário referente ao atendimento identificado.

Pais podem solicitar o prontuário dos filhos?

Pais ou responsáveis legais podem solicitar registros de crianças e adolescentes, mediante comprovação da representação.

Ainda assim, a instituição deve considerar regras de sigilo, proteção e autonomia progressiva, especialmente em atendimentos que envolvem informações protegidas por legislação específica.

Conflitos de guarda, restrições judiciais ou risco ao paciente podem exigir análise individual. Não é adequado tratar toda solicitação envolvendo menor como situação meramente burocrática.

Qual é o prazo para entregar?

O Código de Ética Médica não estabelece um prazo único para toda solicitação de prontuário. A resposta deve ocorrer em tempo razoável, conforme o volume e a forma de armazenamento.

Pela LGPD, a confirmação da existência ou o acesso pode ser fornecido em formato simplificado imediatamente. A declaração clara e completa prevista no artigo 19 deve ser apresentada em até 15 dias, observados os requisitos legais.

Isso não autoriza a instituição a esperar indefinidamente. Se houver tratamento em curso, transferência, perícia ou prazo processual próximo, explique a urgência e anexe comprovação.

A cópia deve ser gratuita?

O direito de acesso deve ser facilitado. A LGPD adota o princípio do livre acesso e prevê consulta fácil e gratuita sobre o tratamento e a integralidade dos dados.

Na prática, instituições podem discutir custo material de grandes reproduções físicas. Cobrança elevada, sem justificativa, não pode ser usada para impedir o exercício do direito.

Quando possível, peça arquivo eletrônico seguro. Se houver cobrança, solicite tabela, fundamento e quantidade de páginas. Não pague valor sem recibo.

O hospital pode entregar apenas um resumo de alta?

Um resumo de alta é útil, mas não substitui o prontuário integral quando este foi solicitado.

O resumo apresenta as informações principais para continuidade do cuidado. Já o prontuário contém registros cronológicos e documentos produzidos durante o atendimento.

Se a instituição entregar somente o resumo, responda por escrito reiterando que o pedido é de cópia integral e enumere os itens ausentes.

Posso pedir imagens de exames?

Sim, quando integram os registros disponíveis e dizem respeito ao paciente. Laudo e imagem são documentos diferentes.

Algumas instituições fornecem imagens por mídia, link ou plataforma. Verifique prazo de disponibilidade, formato e necessidade de programa específico para abrir os arquivos.

Se o exame foi realizado por empresa terceirizada, pode ser necessário pedir diretamente ao laboratório ou serviço de imagem.

O médico pode negar com fundamento no sigilo?

O sigilo protege o paciente; não deve ser usado contra o próprio titular das informações.

O Código de Ética admite exceção quando o acesso ou as explicações puderem ocasionar risco ao paciente ou a terceiros. Essa ressalva não autoriza negativa genérica. A instituição deve avaliar o caso e buscar forma segura de fornecer a informação, inclusive com suporte profissional quando necessário.

Dados de terceiros eventualmente registrados podem exigir proteção ou ocultação. Isso não justifica reter todo o prontuário sem análise.

O prontuário pode ser alterado depois do pedido?

Registros clínicos precisam preservar autoria, data, hora e histórico. Correções devem ser rastreáveis; não podem apagar a informação original como se nunca tivesse existido.

Se você recebeu versões divergentes, guarde ambas e os respectivos metadados, e-mails e datas de entrega. Não conclua automaticamente que houve fraude, pois sistemas podem consolidar documentos em momentos diferentes. A divergência deve ser tecnicamente esclarecida.

O paciente pode pedir correção de dados pessoais inexatos, mas isso não significa reescrever opinião clínica legítima ou apagar fatos do atendimento.

Por quanto tempo o prontuário é guardado?

O prazo depende do formato, da natureza do documento e das normas aplicáveis. A legislação sobre digitalização e guarda de prontuários prevê critérios próprios, e certas instituições mantêm documentos por períodos superiores ao mínimo.

Não espere muitos anos para solicitar registros relevantes. Sistemas mudam, unidades encerram atividades e documentos antigos podem depender de arquivos externos.

Se a instituição informar que o prontuário foi eliminado, peça resposta escrita com a data, o fundamento e a política de temporalidade utilizada.

Familiares podem acessar o prontuário de pessoa falecida?

O sigilo médico continua após a morte. O acesso por familiares e sucessores depende de legitimidade, finalidade, documentos e orientação ética aplicável.

Não existe autorização automática para qualquer parente. A instituição pode exigir certidão de óbito, prova do vínculo, declaração sobre sucessores ou ordem judicial, conforme o caso.

Quando houver divergência familiar ou informação especialmente sensível, é recomendável obter orientação individual antes de insistir na liberação.

O que fazer diante de recusa ou silêncio?

Adote uma sequência:

  1. peça a cópia por escrito;
  2. guarde o protocolo;
  3. aguarde o prazo informado;
  4. reitere o pedido e cite o artigo 88 do Código de Ética Médica e os artigos 18 e 19 da LGPD;
  5. peça justificativa escrita para documentos não fornecidos;
  6. reclame na ouvidoria da instituição;
  7. acione o encarregado de dados pessoais;
  8. avalie reclamação ao CRM, à ANPD ou ao Procon, conforme o problema;
  9. procure orientação jurídica se a recusa persistir ou houver urgência.

Em unidade do SUS, também podem ser utilizados a ouvidoria local, o Fala.BR e a Ouvidoria-Geral do SUS.

Quando cabe medida judicial?

Uma medida judicial pode ser considerada quando a instituição nega ou demora injustificadamente e o documento é necessário para tratamento, perícia, defesa de direito ou esclarecimento de possível dano.

Leve:

  • requerimento;
  • protocolo;
  • respostas recebidas;
  • prova do atendimento;
  • documento de identificação;
  • procuração ou representação, se houver;
  • prova da urgência;
  • relação dos itens faltantes.

O pedido deve ser preciso. Solicitar “todos os documentos existentes” sem identificar paciente, período e unidade pode dificultar o cumprimento.

O prontuário prova erro médico?

O prontuário é uma prova importante, mas não determina sozinho que houve erro. Para entender os demais elementos dessa avaliação, consulte também o conteúdo sobre erro médico e provas.

Um resultado negativo pode ocorrer mesmo com atendimento adequado. A análise exige comparação entre conduta, dever técnico, informação prestada, dano e nexo causal. Por isso, o caso frequentemente exige perícia médica.

O prontuário incompleto pode ter relevância probatória e ética, mas também deve ser examinado com outros documentos, testemunhos e registros.

Checklist do pedido

Antes de protocolar, confira:

  • identificação completa do paciente;
  • período exato do atendimento;
  • nome da unidade;
  • pedido de cópia integral;
  • lista de documentos específicos;
  • formato eletrônico ou impresso;
  • documento do representante;
  • justificativa de urgência;
  • canal para resposta;
  • comprovante do protocolo.

Ao receber, verifique se os arquivos abrem e se o período está completo.

Perguntas frequentes

Preciso dizer por que quero o prontuário?

Em regra, não é necessário justificar o exercício do próprio direito de acesso. Explicar urgência pode ajudar a priorizar o pedido.

O hospital entrega o original?

Normalmente não. O original permanece sob guarda da instituição; o paciente recebe cópia.

Posso receber por e-mail?

É possível, desde que a instituição utilize meio seguro e confirme a identidade do destinatário.

A LGPD impede a entrega?

Não. A LGPD reforça o direito do titular aos próprios dados e exige segurança contra acesso de pessoas não autorizadas.

Um advogado pode solicitar?

Sim, se tiver procuração com poderes adequados e cumprir as exigências de identificação e sigilo.

Conclusão

O paciente tem direito de acessar e receber cópia de seu prontuário médico. O documento original permanece sob guarda do profissional ou da instituição, mas isso não autoriza ocultar as informações do titular.

O pedido deve ser feito por escrito, com identificação, período e relação dos documentos desejados. Diante de entrega incompleta, demora ou recusa, reitere o requerimento e utilize os canais de ouvidoria, proteção de dados e fiscalização profissional.

Se o prontuário for necessário para tratamento urgente ou defesa de um direito, uma orientação jurídica individual pode evitar perda de tempo e delimitar o pedido correto.

Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica ou jurídica individual. Informações de saúde devem ser tratadas com confidencialidade.

Referências normativas e institucionais

Maicon Lima da Silva

Maicon Lima da Silva

Advogado — OAB/PE 71.819

Maicon Lima da Silva é advogado formado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), com experiência em questões de Direito da Saúde, especialmente planos de saúde e direitos do paciente. Possui formação complementar pela FGV em Direito Contratual e em Direito de Seguro e Resseguro.


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